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Afinal, meu cão ou gato já é idoso?

O processo de envelhecimento pode ser definido como uma redução progressiva na habilidade do organismo atender à demanda do ambiente. Todavia, a definição de paciente geriátrico é bastante relativa, uma vez que há diferenças na expectativa de vida para diferentes raças. De uma maneira geral, pode ser definido como aquele paciente que completou 75 a 80% de sua expectativa de vida.

Mas o que é arritmia cardíaca e como ela se dá no coração do cachorro e gato

O surgimento de arritmia, definida como anormalidade na formação, condução, frequência e regularidade do impulso cardíaco, é mais frequente no animal idoso. O entendimento da organização das células miocárdicas, bem como de suas propriedades eletrofisiológicas é fundamental para a compreensão dos mecanismos responsáveis pelo surgimento de arritmias no paciente geriátrico. Graças à organização dos miócitos em um sincício funcional, todas as células atriais estão eletricamente conectadas entre si, o mesmo ocorrendo com as células ventriculares. Células especializadas, com características eletrofisiológicas próprias, constituem o chamado tecido de condução, que permite a comunicação entre as células atriais e ventriculares, bem como a rápida condução do impulso elétrico no interior dos ventrículos. Outros conjuntos de células especializadas constituem os chamados marcapassos cardíacos (sinusal e átrio-ventricular), responsáveis por iniciar o impulso elétrico no coração. Essas células cardíacas interagem, de uma maneira complexa, com o sistema nervoso autônomo e com o fluido intersticial que perfunde o coração, modulando a atividade elétrica deste órgão. O fato dos animais idosos estarem mais sujeitos a anormalidades em algum destes componentes pode explicar porque os pacientes geriátricos apresentam arritmias com maior frequência. Dentre as principais alterações presentes no miocárdio do cão idoso, destaca-se a ocorrência de morte celular e substituição dos miócitos por tecido fibroso. Além disso, é comum o surgimento de áreas de necrose miocárdica, bem como de infiltração gordurosa. Quando este processo atinge o sistema de condução, ocorrem os chamados bloqueios. As lesões no miocárdio ordinário, por sua vez, originam os chamados batimentos ectópicos.

Sintomas comumente associados às arritmias cardíacas

Além dos processos inerentes ao envelhecimento, as cardiopatias são frequentes nos animais idosos e também resultam no surgimento de arritmias cardíacas. Dentre elas, destaca-se a doença valvar crônica nos cães e as cardiomiopatias nos felinos. As manifestações clínicas mais frequentemente associadas às arritmias são: síncope, fraqueza, dificuldade respiratória, intolerância ao exercício, ascite, entre outras. Algumas podem resultar em morte súbita, mesmo em pacientes sem qualquer manifestação prévia. A arritmia cardíaca pode, muitas vezes, ser detectada pelo exame físico, por meio da auscultação cardíaca. Nos animais com as manifestações clínicas acima descritas, é imprescindível uma auscultação cuidadosa e prolongada, onde batimentos prematuros, pausas, ou frequências cardíacas anormais podem ser perfeitamente identificados. Uma vez detectada a irregularidade no ritmo cardíaco, deve-se realizar o exame eletrocardiográfico para o diagnóstico exato do tipo de arritmia presente. Trata-se de um exame de fácil execução e de baixo custo, que pode ser utilizado em animais com histórico de síncope, fraqueza, cardiopatias, devendo ser realizado previamente a procedimentos anestésicos em pacientes idosos. Contudo, um resultado normal, nos animais com manifestações clínicas de baixo débito cardíaco, não exclui a possibilidade da ocorrência de arritmias. Nestes casos, a monitorização eletrocardiográfica ambulatorial (holter) por período de 24 horas constitui-se no melhor método de investigação. Ainda, o holter é indicado para avaliação da terapia antiarrítmica instituída.

Holter em cão

Classificação das arritmias

Podemos dividir as arritmias, de acordo com a origem, em supraventriculares e ventriculares. As arritmias supraventriculares têm origem em o nó sinusal, nos átrios e na junção átrio-ventricular, enquanto as arritmias ventriculares originam-se nos ramos de condução, no sistema de Purkinje ou no miocárdio. Ainda, são denominadas bradiarritmias quando levam à frequência cardíaca abaixo da fisiológica, e taquiarritmias, quando acima. Bradiarritmias com origem sinusal podem surgir no cão geriátrico por causa da degeneração das células marcapasso do nó sinusal. Tal condição também é conhecida como “síndrome do nó doente”, sendo mais freqüente em cadelas da raça Schnauzer, levando a episódios de fraqueza ou síncope. Nestes animais, o eletrocardiograma pode mostrar períodos longos de parada sinusal. Ainda, em alguns casos esses longos períodos de pausa são sucedidos por períodos de taquicardia supraventricular, o que é denominado síndrome bradicardia-taquicardia.

 

Quando o comprometimento atinge as células do marcapasso atrioventricular, há uma bradiarritmia com origem átrio-ventricular, conhecida como bloqueio atrioventricular, comum em felinos portadores de cardiomiopatias. Este bloqueio pode ser de primeiro grau, quando há apenas um retardo na condução do impulso pela junção átrio-ventricular, de segundo grau, quando o impulso é conduzido de forma intermitente, ou de terceiro grau, quando todos os impulsos são bloqueados. Outras causas de bradiarritmias devem ser descartadas no paciente idoso, como aumento no estímulo parassimpático, hipotireoidismo, hipoadrenocorticismo e hipercalemia (comum na insuficiência renal aguda e em felinos com obstrução uretral). O diagnóstico diferencial pode ser realizado por meio do teste de estimulação com atropina. Após a administração da atropina, considera-se favorável a resposta quando há uma elevação na frequência cardíaca em torno de 50 a 100% em relação aos valores basais. Caso não exista esta resposta, provavelmente a origem está na degeneração do tecido de condução, o que só poderá ser resolvido com o implante de marcapasso cardíaco artificial.

 

As arritmias atriais surgem quando um ou mais marcapassos ectópicos começam a despolarizar em tecidos acima do nó átrio-ventricular, podendo levar ao surgimento de taquiarritmias atriais. Quando esta atividade ectópica é encontrada em tecidos abaixo do nó átrio-ventricular, surgem as arritmias ventriculares, também podendo evoluir para taquiarritmias ventriculares. Estas geralmente resultam em manifestações agudas de baixo débito cardíaco (fraqueza e síncope) e representam maior risco de morte súbita. Cães idosos têm uma maior predisposição ao surgimento de ectopias devido ao processo de fibrose miocárdica. O diagnóstico e acompanhamento destas taquiarritmias devem ser feitos não só com o eletrocardiograma, mas com o holter também. Isso porque pacientes com eletrocardiograma normal após início da terapia também podem apresentar arritmias, ainda que menos freqüentes. Além disso, o holter auxilia na identificação de possíveis efeitos pró-arrítmicos (arritmia induzida pelo fármaco utilizado).

Desconfio que meu pet ou paciente apresenta arritmia, o que fazer?

Considerando todas essas características, faz-se necessário a avaliação cuidadosa da atividade elétrica cardíaca nos pacientes geriátricos, principalmente naqueles com manifestações clínicas de baixo débito cardíaco ou insuficiência cardíaca congestiva, assim como naqueles que serão submetidos a algum procedimento anestésico.

Guilherme Gonçalves Pereira

Autor do texto:

Prof. Dr. Guilherme Gonçalves Pereira

 

 

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